Sábado Santo

Ele desceu à mansão dos mortos

 

Dia de silêncio, de recolhimento, de meditação. São João Damasceno nos fala da visita que o Senhor fez à mansão dos mortos. Texto esplendoroso que pode provocar em nós lágrimas de arrependimento e vontade de começar tudo de novo.

♦ Cristo está na cruz: aproximemo-nos dele, participemos de seus sofrimentos para ter parte em sua glória. Cristo jaz entre os mortos: morramos ao pecado a fim de viver para a justiça. Cristo repousa num túmulo novo; purifiquemo-nos do velho fermento, tornemo-nos uma massa nova e sejamos para ele um lugar de repouso. Cristo desce à mansão dos mortos: desçamos também com ele pela humilhação que exalta, a fim de ressuscitarmos, sermos exaltados e glorificados com ele, sempre vendo e sendo vistos por Deus. Vós que sois do mundo, sede livres; vós que estais amarrados, saí; vós que estais nas trevas, abri os olhos para a luz; vós que estais no cativeiro, libertai-vos; cegos, levantai os olhos. Desperta, Adão que dormes, levanta-te de entre os mortos, pois Cristo nossa ressurreição apareceu!

♦ Aquele que se assenta sobre os querubins (cf. Sl 79,2) foi pregado numa cruz como um condenado. Embora sendo a vida dos homens, os assassinos de Deus não acreditaram ao vê-lo suspenso no madeiro. Aquele que plasmou o homem com suas mãos divinas estendeu o dia inteiro, suas mãos puras a um povo rebelde que seguia um caminho mau, e entregou sua alma nas mãos do Pai. Com uma lança perfuraram o lado daquele que criara Eva do lado de Adão; jorraram água e sangue, bebida de imortalidade e batismo de regeneração. Por isso, o sol se escureceu não suportando ver maltratado o Sol da justiça. A terra estremeceu, aspergida com o sangue do Senhor, purificada da idolatria e saltando de alegria por essa purificação.

♦ Aquele que soprara a vida em Adão para dele fazer um ser vivente foi depositado num túmulo, morto, sem vida. Aquele que condenara o homem a voltar à terra foi contado entre os esquecidos da terra. As portas de bronze são quebradas, as barras das portas destruídas, as portas eternas se abrem, o guardião da mansão dos mortos se apavora. Aquele que não tem pecado está entre os mortos. Aquele que desfizera as ligaduras de Lázaro é envolvido com ataduras, para desatar as amarras do homem morto por causa do pecado e enredado em seus laços, a fim de torná-lo livre. Agora, o rei da glória desce à casa do tirano, ele o Forte nos combates sai de um extremo do céu e no outro termina a sua corrida, alegrando-se como um atleta a percorrer seu caminho.

♦ Agora, a mansão dos mortos torna-se o céu, o Hades é iluminado, as trevas, que outrora amedrontavam, vão-se embora, e os cegos recobrem a vista. Pois o Sol nascente, luz do alto, visita os que jazem nas trevas e na sombra da morte estão sentados (cf. Lc 1,78-79).

♦ Escutemos, nós que não vemos, e acreditamos na boa nova dos que anunciam a paz. Porque o braço de Deus e seu poder nos foram revelados. Se escutarmos, seremos glorificados, contemplando na humilhação, como num espelho, a glória do Senhor, e vendo, em seu aspecto desfigurado, a beleza que ultrapassa toda beleza. Se o vemos preso ao madeiro, sem beleza nem glória, morrendo por todos nos homens, ele é, no entanto, o Esplendor da glória do Pai. Ele dá sua túnica aos soldados que a repartem mas, ressuscitado dos mortos, enviará diante das nações os discípulos que escolheu, e ele mesmo será a túnica do batismo para os fiéis. Pois, vós todos batizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl 3, 27).

♦ Acima de tudo, tende os mesmos sentimentos de Cristo Jesus que nos amou quando ainda éramos inimigos. Pois a antiga liberdade nos será devolvida, nós celebraremos o Êxodo Senhor Deus e a Igreja estará em paz. Então, com nossas lâmpadas acesas iremos ao encontro do Esposo imortal vencedor da morte. E com o rosto descoberto, contemplaremos como num espelho, a glória do Senhor, cuja beleza haveremos de gozar. A ele sejam dadas, honra, adoração e glória em união com o Pai e o Espírito Santo, agora e sempre, e por todos os séculos. Amém.

Das Homilias de São João Damasceno e Lecionário Monástico II, p. 621-623

Frei Almir Guimarães

 

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp

Facebook