Sexta-feira da Paixão do Senhor

Um amor inimaginavelmente sem medida

 

Quando eu for elevado atrairei tudo a mim.
João 12,32

♦ Sexta-feira do amor que vai até o fim. Dor e amor. Melhor fora, quem sabe, nada escrever sobre o tema. Momento da entrega e do abandono do mais belo dos filhos dos homens. Bastaria ficar em silêncio. No dia de hoje o silêncio fala mais do que as palavras. Sexta-feira da desolação.

♦ Os celebrantes da cerimônia da tarde entram em silêncio no templo. Estão vestidos de paramentos rubros. Fogo e dor. Fogo do amor e dor do mistério da morte violenta. Prostram-se por terra. Celebração da paixão e morte de Jesus, nosso caminho. Deus vem morrer em nossa carne para que possamos viver. Dor aguda e esperança indefectível. Nobre e belo o gesto da prostração do corpo e da mente.

♦ “Nosso Senhor foi calcado pela morte mas, por sua vez, esmagou-a como quem soca aos pés o pó da estrada. Sujeitou-se à morte e aceitou-a voluntariamente, para destruir aquela morte que não queria morrer. Nosso Senhor saiu para o Calvário carregando a cruz, para satisfazer as exigências da morte; mas ao soltar um brado no alto da cruz, fez sair os mortos dos sepulcros, vencendo a oposição da morte. A morte o matou no corpo que assumira; mas ele, com as mesmas armas, saiu vitorioso da morte. A divindade ocultou-se sob a humanidade e assim aproximou-se da morte que matou, mas que também foi morta. A morte matou a vida natural e, por sua vez, foi morta pela vida sobrenatural” (Santo Efrém, Liturgia das Horas II, p. 662-663).

♦ Sexta-feira das dores, do silêncio, da paixão, da compaixão. O Menino das Palhas, o andarilho que espargia esperança, o amigo dos homens chega ao termo de sua curta caminhada. Hora da solidão. Hora esperada, mas temida. Hora de um batismo sonhado. Seria melhor se o cálice lhe fosse afastado. Dores intensíssimas no corpo e aflição no espírito. Querendo falar e quase não podendo nada articular. Encarcerado com a prisão dos cravos. Parece que até mesmo o céu se fechara. Suaves e doídos gemidos do Filho muito amado. O céu havia dito e diz: “Este é meu Filho amado, escutai-o!” “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”.

♦ Antigamente, em tempos revolutos, quando tudo havia começado, houve uma árvore, uma outra árvore. A árvore da “prova” , do teste da fidelidade, colocada no meio do paraíso, que foi ocasião da desarrumação do coração dos nossos pais. E agora, eis uma outra árvore levantada, a árvore da cruz que carrega um preciosíssimo fruto: aquele que ama sem limites e alimenta os famintos, os verdadeiros famintos, os famintos de Deus, os que se recusam de levar uma vida pequena, frustrada, frustrante e banal.

♦ O ladrão, aquele que é designado de “bom ladrão” dirige-se a Jesus, meio de lado, ainda com força na voz. Suplica que o Mestre dele se apiede. “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso. Hoje mesmo… (que palavras belas)… Eu vou te levar para a ventura do Pai, do meu Pai e teu Pai”. O amor crucificado ainda tem palavras de compaixão…

♦ “Minha alma tem sede de Deus, meu Salvador. Desejo abrir-me ao Senhor. Quero ver aquele que sorveu o cálice mais amargo do mundo, sim o mais amargo. Como efetivamente esse cálice deve ter sido amargo para aquele que era tão puro e tão sensível. Quero beijar estes pés ensanguentados que não pararam de andar sempre em busca de mim até nos becos sem saída e nos abismos mais profundos onde meus pecados me levaram. Quero ver o lado traspassado para ali fazer um lugar para mim” (Karl Ranher).

♦ “Que te fiz eu, meu povo eleito? Dize em que te contristei? Para que por que? Essa cruz, esses pregos, essa solidão, esse olhos turvos, esse abandono, esse morrer? Dize em que te contristei…” Sexta-feira, das dores, da desolação, sem missa, sem sacramentos. Desolação?

♦ É de João e só de João, o detalhe da lança que perfura o peito de Jesus. Uma fonte no peito do amado. Dali correm sangue e água, sinais de vida e de fecundidade. “Queres compreender profundamente o significado deste sangue? Repara de onde ele começou a correr e de que fonte brotou. Começou a brotar da própria cruz, e sua origem foi o lado do Senhor. Estando Jesus já morto e ainda pregado na cruz, diz o evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-lhe o lado com a lança e imediatamente saiu água e sangue: a água como símbolo do batismo; o sangue como símbolo da eucaristia. Abriu uma brecha na parede do templo santo e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias. Assim aconteceu com este cordeiro. Os judeus mataram um cordeiro e eu recebi o fruto do sacrifício” (São João Crisóstomo, Liturgia das Horas II, p. 436).


Ladainha da sexta-feira da paixão

1. Por tua Igreja, Senhor, que te aguarda como seu esposo, na noite deste mundo, Senhor Jesus pela noite da tua paixão, nós te pedimos.

2. Por aqueles que não nos amam, e que não sabemos amar, por nossos inimigos e por aqueles que nos querem mal, Senhor Jesus…

3. Pelos doentes, pelos que se encontram nos hospitais, que passam a noite no sofrimento, pelos que estão em agonia e morrem nesta noite, esses cujos olhos não verão mais a luz do dia, Senhor Jesus…

4. Pelos que vivem angústias, não conseguem dormir, por aqueles que são presas da ideia do suicídio, Senhor Jesus…

5. Pelos que estão em prisão, pelos que são torturados e que são aniquilados na noite, pelos condenados à morte que esperam a noite da execução, Senhor Jesus

6. Pelos homens e mulheres que se amam, pelos casais que descansam em paz, pelas mulheres que dão à luz, Senhor Jesus.

Frei Almir Guimarães

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