09/11: Dedicação da Basílica de Latrão

Consagração da Basílica do Latrão

Na festa da dedicação da basílica do Latrão, em Roma, celebram-se, de fato, as catedrais de todas as dioceses do mundo. A basílica do Latrão foi a primeira catedral do mundo. Igreja catedral é a Igreja do bispo do lugar. A igreja dedicada a S. João Batista e a S. João Evangelista, no morro do Latrão, em Roma, foi durante muito tempo a igreja do bispo de Roma, o papa. E como o papa exerce a “presidência da caridade” entre os bispos do mundo inteiro, a igreja catedral do Latrão simboliza todas as dioceses.

Mas o que se celebra não são templos de pedra e sim os templos do Espírito, as comunidades dos fiéis. A liturgia de hoje se refere continuamente ao templo de pedras vivas, que são as comunidades cristãs, e ao templo que é o corpo de Cristo, ressuscitado, que substitui o templo do antigo Israel. O evangelho deixa isso bem claro. Conforme João, já no início de sua atuação pública, Jesus chega a Jerusalém por ocasião de uma romaria pascal e expulsa do templo não só os abusos (como descrevem os outros evangelistas, Mt 21,12-13 par.), mas os próprios animais do sacrifício. Em outros termos: expulso o culto do templo. E quando as autoridades lhe pedem um sinal profético que possa respaldar tal gesto inimaginável, Jesus aponta o sinal que só depois (2,22) os discípulos vão conhecer: o sinal de sua ressurreição.

O templo antigo pode ser destruído (como de fato ele foi, em 70 d.C., alguns anos antes de João escrever seu evangelho), mas Jesus “fará ressurgir” um novo templo em três dias: o templo de seu corpo, de sua pessoa. Jesus é templo, santuário, lugar de culto a Deus, de encontro com Deus. Nele, a Palavra de Deus armou tenda entre nós (Jo 1,14). Nele também é oferecido a Deus o único culto da nova Aliança, o dom da própria vida por amor.

Ora, ao templo que é Jesus associa-se o templo de pedras vivas que é a comunidade. A 1ª carta de Pedro (cf. canto da comunhão) apresenta uma bela homilia pascal, para os novos batizados, neste sentido. Eles devem se aproximar (termo do culto) da pedra rejeitada, Cristo, que pela ressurreição se tomou pedra angular, alicerce (cf. a “primeira pedra” de uma igreja). Eles são assim o edifício “espiritual” ( = constituído pelo espírito, a força ativa de Deus, que ressuscitou também Jesus). E nessa comunidade é que se oferece o “sacrifício espiritual” (= promovido pelo Espírito de Deus) (7), que é a prática da vida cristã (ler 1Pd 2,4-10 e Rm 12,1). Paulo (2ª leitura) usa uma imagem semelhante, ao falar de seu trabalho de fundação da igreja de Corinto. A comunidade é construção de Deus, morada do Espírito. O alicerce, posto pelo próprio Paulo, é Cristo. Adiante, ao proscrever a imoralidade sexual, ele aplica essa mesma imagem ao comportamento pessoal dos fiéis (1Cor 6,19).

A abertura dessas imagens é fornecida pela “utopia de Ezequiel”, na qual aparece a descrição do novo templo, a ser construído quando os exilados da Babilônia voltarem à Judéia (lª leitura). Ezequiel vê a fonte do templo (o riacho do Gion) como um rio caudaloso que saneia as águas e as margens e até o Mar Morto… Um símbolo da salvação que deve fluir do novo templo. Pela “lógica da liturgia”, isso se aplica a Cristo e à sua comunidade (cf. Jo 7,3 7-39). A comunidade de Jesus deve ser a edificação de Deus da qual sai a água salvadora para a humanidade.

Pe. Johan Konings

Mensagem

A Igreja de Pedras vivas e o sacrifício espiritual

A liturgia da dedicação da basílica do Latrão, primeira catedral (igreja episcopal) da cristandade, sugere a extensão a todos os templos cristãos em todas as dioceses do mundo, as “Igrejas particulares”, nas quais está presente a Igreja universal a serviço da qual está disposto o bispo de Roma, o Papa.

Ora, ao se observar bem, a liturgia não realça os templos de pedra, os edifícios góticos, barrocos… Realça o novo templo “espiritual” que é Cristo ressuscitado e a comunidade, templo de “pedras vivas”, alicerçada nele (pelo trabalho do apóstolo). E a própria atuação do cristão é o “sacrifício espiritual” do novo culto.

”Espiritual”, neste contexto, não quer dizer o oposto de material. Quer dizer o que é suscitado pelo Espírito de Deus (ou talvez: interpretado à luz do Espírito de Deus). Ora, isso não é coisa no ar. Os frutos do Espírito são coisas bem concretas: amor fraterno, alegria, paz, etc. (Gl 5,22). O sacrifício espiritual (1Pd 2,5; Rm 12,1) implica em coisas bem concretas e materiais: é a própria vida cotidiana do cristão, vivida em amor fraterno eficaz.

São esses os sacrifícios oferecidos no novo templo que somos nós. Em nossa comunidade de amor eficaz, baseado em Cristo, Deus se torna presente muito mais do que no templo de Jerusalém.

Pe. Johan Konings, SJ, do livro “Liturgia Dominical”, Editora Vozes

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