03 de junho: Corpus Christi

Um pão que robustece o existir

Frei Almir Ribeiro Guimarães

Desde nossa infância ouvimos falar da comunhão, de “fazer a primeira comunhão”, do pão, do vinho. Havia a recomendação de não se mastigar, de não quebrar o jejum desde a meia-noite. Não usávamos tanto o termo eucaristia. Falávamos mais de missa. Ficávamos com o substantivo abstrato “comunhão”, mas pensávamos mais materialidade da hóstia feita de farinha de trigo e água. Aprendemos que se tratava do corpo de Cristo nas aparências do pão (também do vinho). Até que ponto tudo isso teve e tem repercussões profundas em nossa vida de discípulos do Senhor e em nossos dias, nesse novo milênio? Tema vasto e amplo! Belo momento de adoração e de demonstração de carinho para com o Senhor feito pão, feito vinho é a Solenidade de Corpus Christi!

Pão, alimento, vinho bebida revigorante. Faziam parte da mesa dos orientais. Alimentamo-nos. Há o alimento para o corpo. Há também o alimento do bem querer, da estima, da atenção, das deferências, da bondade com que somos tratados e tratamos os outros, alimento da vida humana em sua profundidade verdadeiramente humana e não apenas animal. Mesa do corpo e mesa do interior das pessoas.

Mesa, lugar de estreitamento dos laços de bem querer, alimentar-se juntos. Não comer sofregamente. Comer e conviver. O mesmo alimento do comensal ao nosso lado é nosso nutrimento. Cria-se comunhão de vida na partilha em torno à mesa. São dignos de comungar os que vivem comunhão com os outros.

Era a véspera de sua Paixão, era a preparação da Páscoa dos judeus. Comer a Páscoa, lembrar as maravilhas do Senhor numa refeição religiosa. Jesus parece repetir a cena e seus gestos. Mas tudo diferente. “Este é meu corpo, este o cálice do meu sangue. Sou eu sob a aparência do pão cozido e o vinho espremido. Tomai e comei, tomai e bebei e entraremos em comunhão. Meu corpo é dado e meu sangue versado. Os que comem deste pão e bebem desse cálice entram em comunhão comigo. Estamos unidos. Vivemos uma densa união. Quem come deste pão e vive o dom da vida como eu vivi tem a vida e não conhecerá a morte. Já carrega germes de eternidade. No dia a dia da existência, vivendo comigo, são robustecidos com meu corpo e meu sangue no pão e no vinho da mesa mais bela do mundo”.

Corpus Christi…dia em que o Santíssimo Corpo do Senhor é levado pelas ruas numa bela demonstração de fé, numa procissão que é uma declaração pública de amor ao Senhor que deu a vida para que o mundo tivesse vida.

Eucaristia, celebrar as maravilhas do Senhor. Os discípulos de Jesus experimentam particular alegria em renovar a ceia do Senhor. Chegam de suas casas, com sua história, seus acertos e desacertos. Querem estar perto do Senhor cuja presença se adensa na celebração. Sabem que nas palavras e gestos da missa se atualiza o amor do Senhor. Entram em comunhão com seu corpo glorioso. Fazem uma só realidade com ele. Assumem em sua vida o belo destino do Senhor, destino de amor, esperança, serviço. Como são belas as eucaristias dominicais!

“Comer a Cristo é muito mais do que adiantar-nos distraidamente a cumprir o rito sacramental de receber o pão consagrado. Comungar com Cristo exige um ato de fé de especial intensidade, que se pode viver somente no momento da comunhão sacramental, mas também em outras experiências de contato vital com Jesus. O decisivo é ter fome de Jesus. Busca-lo a partir do mais íntimo de nós mesmos. Abrir-nos à sua verdade para que nos marque com seu Espírito e potencie o melhor que há em nós, Deixar que ele ilumine e transforme as zonas de vida que ainda não foram evangelizada” (Pagola, João, p. 110).

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