Os motivos da morte de Jesus

Frei Luiz Iakovacz

Desde o início da pregação de Jesus, os “fariseus consultaram os herodianos para encontrarem algum motivo e matá-lo” (Mc 3,6). Este plano perpassa todo seu ministério, culminando em Jerusalém. Ali, os “príncipes dos sacerdotes e anciãos decidem prendê-lo, com astúcia, sem levantar tumulto entre o povo” (Mt 26,4-5).

Consumada a prisão, Jesus é levado ao julgamento. Uns “procuravam falsos testemunhos, mas não encontravam”, enquanto outros “depunham, mas seus testemunhos não concordavam entre si” (Mc 14,55-56).

Sua morte foi decretada quando declarou: “Eu sou o Messias”. Rasgando as vestes, o Sumo Sacerdote disse: “Blasfemou! Que necessidade temos de ouvir testemunhas? Que vos parece? Todos gritaram é réu de morte” (Mt 26,63-66). Manietaram-no e O levaram a Pilatos (Mt 27,2). Diante do governador, os motivos são outros: “Encontramos esse homem sublevando nossa nação, proibindo dar imposto a César e se declarando Rei” (Lc 23,2).

Nos dois momentos em que esteve a sós com Pilatos, no primeiro, ficou calado, fato que o deixou “muito admirado” (Mt 27,14). No outro, declara-se Rei dos Judeus e que seu Reino é o da Verdade (Jo 18,36-37).

Após os interrogatórios, Pilatos afirma que nem ele nem Herodes Antipas, governador da Galileia, encontraram motivos para condená-lo (Lc 23,6-15).

Convencido que Jesus era inocente e que foi entregue por inveja (Mt 27,18), Pilatos tenta libertá-lo, por três vezes.

A primeira, que o Sinédrio O execute segundo as leis de Israel. Eles respondem: “Não nos é permitido matar ninguém” (Jo 18,31). Depois, pensa em “castigá-lo e soltá-lo” (Lc 23,16). Por fim, lança mão do costume pascal de soltar um prisioneiro, convicto de que a liberdade seria dada a Jesus e não ao homicida Barrabás (Mt 27,15-23). Vendo que não conseguia demover os acusadores, “lavou as mãos”, dizendo-se “inocente do sangue deste justo” e que “a vós pertence toda a responsabilidade”, ao que responderam: “Seu sangue caia sobre nós e nossos filhos” (Mt 27, 24-25).

O ponto crucial ao qual Pilatos “ficou com mais medo” (Jo 19,8) foi quando lhe disseram “se soltares esse homem não és amigo de César porque todo aquele que se declara rei é contra César. (…) Então, entregou Jesus para que fosse crucificado” (Jo 19,12-16). (Na história humana, a política de não perder o cargo e a amizade dos ‘césares da vida’ está tão enraizado que persiste até hoje. O ‘Pilatos histórico’ continua pressente em todas as classes sociais e religiosas, e em cada um de nós).

A postura de Jesus do Getsêmani ao Calvário

No Getsêmani, os Evangelhos retratam um Jesus tão humano que pede aos apóstolos para ficar com ele “porque minha alma está numa tristeza mortal” (Mt 26,38), “começou a sentir pavor e angústia” (Mc 14,33) e o “suor tornou-se gotas de sangue” (Lc 22,44). Se este é seu estado físico e psíquico – como entender o abandono e a fuga dos apóstolos (Mt 26,56)? Como entender que um deles O traiu com um beijo e Ele o chamou de ‘amigo’ (Mt 26,50)? Como entender que Ele mesmo se apresenta para ser preso, que “deixem os outros irem em paz” e que não se faça uso de armas para defender-se (Jo 18,4-11)?

Desde o Getsêmani até o Calvário, a postura de Jesus é marcada por um extraordinário equilíbrio emocional que surpreende a todos. Diante da violência física feita, ora pelos acusadores ora por soldados – não reclama de dores, não revida e nem promete vingança. Não se alterou com o desprezo de Herodes que o vestiu com um manto de carmesim, nem de receber uma cana como cetro e espinhos como coroa (Mt 27,28-29). Nem mesmo quando foi cuspido e, de rosto vedado, era provocado: “adivinha quem te bateu” (Mt 26,67).

Como entender que as piedosas mulheres foram consolá-lo e é Ele quem as consola (Lc 23,27-28)? Que confia sua mãe e o discípulo amado aos cuidados mútuos: “eis tua mãe, eis teu filho” (Jo 19,26-27)?

Na agonia da cruz “os príncipes dos sacerdotes, os anciãos e os escribas O desafiaram, dizendo “se és o Rei de Israel, desça, agora, da cruz e creremos em ti” (Mt 27,41-42). Ele, porém, não desceu, ao contrário, perdoou e desculpou: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem (Lc 23,34). Ao dar o último suspiro, entrega-se Àquele a quem tanto amou: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Como entender tudo isso?

O centurião romano, encarregado de acompanhar os soldados desde a prisão até a morte – provavelmente, fez o mesmo com outros sentenciados e, neles, quem sabe, observou revolta, xingamentos, pragas – mas, em Jesus, percebeu uma outra postura. Deverá ter pensado: ‘Isso não é próprio do ser humano, aqui está algo divino’, pois “vendo-o expirar desse modo, exclamou: verdadeiramente este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,39).

Este é o testemunho de um pagão no Calvário. No Getsêmani, Jesus busca força na oração: “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice. Não se faça, porém, a minha vontade, mas a tua” (Mc 14,36).

Desde esse momento, ‘tristeza mortal, angústia e pavor, solidão e sofrimentos físicos’, paulatinamente cria-se espaço para “deixar-se possuir, totalmente, por Deus”. Essa ‘kenosis/esvaziamento de si’ não nos vem num passe de mágica, nem de um único momento de oração, mas é uma virtude conquistada no transcurso de uma vida inteira.

Nesse discipulado, Deus sustenta a caminhada para que cada um chegue ao seu Calvário/Ressurreição.

Para Deus, tirar a cruz é fácil, pois Ele é poderoso e só depende Dele. Porém, em sua sabedoria, prefere contar com a colaboração humana. Quando esta se une ao “faça-se a tua vontade”, então, “tudo é possível”.

Fonte: Franciscanos

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