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Frei Clarêncio aos alunos de Teologia: “Não necessitamos de meios de comunicação, mas de comunicação”

Os alunos do primeiro ano do curso de Teologia do Instituto Teológico Franciscano (ITF, de Petrópolis (RJ), tiveram o privilégio de ouvir o jornalista e escritor Frei Clarêncio Neotti durante aula, nesta terça-feira (29/9), da disciplina “Comunicação na Pastoral”, a convite do professor Frei Gustavo Medella, que é o Vigário Provincial da Província da Imaculada Conceição.

Frei Clarêncio, que reside em Vila Velha (ES), onde é Vigário Paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo, estreou numa sala de aula on-line neste tempo de pandemia (ele foi professor de Comunicação e Teologia Pastoral no ITF de 1970-1986). Como lembrou Frei Medella, Frei Clarêncio é um especialista e profundo conhecedor da temática da comunicação. “Posso dizer que ele viveu na prática todos os desdobramentos desses documentos eclesiais que nós estudamos anteriormente”, disse o professor, referindo aos documentos “Inter mirifica” (1963), do Concílio Vaticano II, e “Communio et progressio” (1971), de Paulo VI.

Frei Medella lembrou que Frei Clarêncio trabalhou na CNBB, esteve a serviço da Ordem dos Frades Menores, em Roma, formou gerações de professores, fundou e participou de entidades da comunicação. Tem publicações nessa área, como “Comunicação, um estudo crítico”, “Comunicação e consciência crítica”, “Comunicação e ideologia”, além de outras obras de natureza litúrgica e pastoral, como a biografia de Frei Bruno Linden, o frade em processo de beatificação. Grande parte dessa experiência nos campos da evangelização e da comunicação está reunida em seis volumes com o título “Ribeirão Grande – Vi, Vivi, Vivenciei”. Frei Clarêncio informa que essas notas biográficas já estão no 10º volume.

Frei Clarêncio destacou para os alunos que é importante diferenciar “comunicação de meios de comunicação”, pois trata-se de uma diferença fundamental. “Como franciscanos, nós necessitamos da comunicação, não dos meios de comunicação. A comunicação é evangelização. O meio não precisa ser evangelizado. A comunicação é parte integrante do nosso carisma franciscano. Os meios não. E evangelho significa comunicação, porque é a Boa Nova. Jesus não teve os meios que nós tivemos e é o grande comunicador. São Francisco de Assis não teve os meios que nós tivemos e é um modelo de comunicador”, explicou.

Para o frade, a comunicação deve levar à comunhão. “Aliás, em latim, communicatio, significa comunhão e comunicação. É a mesma palavra. Isso tem uma importância muito grande. Toda comunicação deve me levar à comunhão. Os nossos meios nem sempre nos levam à comunhão”, reforçou, frisando que devemos desenvolver a verdadeira comunicação. “Jesus, repito, é o verdadeiro modelo de comunicador, sobretudo naquela página da samaritana, que é excepcional. E a condição básica da comunicação é o respeito e a aceitação da outra pessoa. Respeito e aceitação da outra pessoa, sem isso não temos fraternidade. Sem fraternidade, não existe carisma franciscano. Se o carisma franciscano só existe na fraternidade, a comunicação é condição da vida franciscana. Volto a dizer, São Francisco é um modelo de grande comunicador”, ressaltou.

“Tudo o que ajuda a comunicação, eu chamo de meios,  da música à dança, do teatro ao jornal, até à imprensa”, disse, lembrando que outros meios nasceram durante a história: rádio, cinema, televisão. “Vocês estão pegando outros meios de comunicação bem diferentes, porém esses meios que vocês têm hoje não se podia sequer imaginar há 20 anos, 30 anos”, observou. Esses meios têm duas raízes, segundo o frade: a eletricidade, pelos anos 1870; e a segunda grande descoberta que possibilitou esse desenvolvimento fantástico da comunicação, que foi o transistor, em 1968 (os transistores são como blocos fundamentais na construção de todos os dispositivos eletrônicos modernos, sendo usados em chips de computadores e smartphones, por exemplo). “Ninguém de vocês era nascido, mas eu já era padre. Eu me lembro tão bem quando se começou a falar disso. Todos os jornais comentando. Foi tão fundamental que, já um ano depois, o homem chegou à lua, em 1969”, recordou.

Essa descoberta levou a três grandes consequências: a ida do homem à lua; “a maldita guerra do Golfo, em 1990, em que os americanos massacraram Saddam Hussein e outras autoridades árabes por causa do petróleo. Essa foi guerra foi midiática”; e a terceira, o desenvolvimento do telefone celular e dos computadores. “Vejam como os meios vão se modificando. A comunicação, não”, emendou.

Neste trabalho evangelizador, Frei Clarêncio imprimiu novo fôlego à Revista de Cultura Vozes, em sintonia com a gestão de Frei Ludovico Gomes de Castro à frente da Editora. “Quando eu entrei na Vozes em 1966, recebi uma incumbência do meu Provincial de transformar a Revista, que tinha uma linha conservadora, numa revista portadora dos valores do Concílio Vaticano II, que terminara em dezembro de 1965”, explicou o frade.

“Na Vozes, eu comecei também uma coleção de livros de comunicação. Não são esses que Frei Medella mostrou (no início da matéria). Eu entrei em contato com a USP (Universidade de São Paulo) e lá estava um professor jovem chamado José Marques de Melo. Com ele, fizemos mais de 100 reuniões e montamos vários livros de comunicação para que a comunicação fosse de fato comunicação e não apenas informação“, contou o frade, que trabalhou na Editora Vozes por 21 anos como redator.

Em 1969, participou da fundação União Cristã Brasileira de Comunicação (UCBC), entidade que presidiu por dois triênios seguidos. “Observe que era em plena ditadura, onde não se podiam fazer reuniões públicas, seminários, congressos, tudo era controlado pela ditadura. E a gente criou isso, foi crescendo devagarinho, e nós conseguimos montar vários congressos nacionais, reunindo professores e alunos, sobretudo das faculdades nascentes de comunicação. E sendo nascente, todo mundo estava curioso das novidades que poderiam conhecer”, disse. Do território nacional, Frei Clarêncio passou pela América Latina, presidindo por três triênios seguidos a União Católica Latino-Americana de Imprensa. Ele foi vice-presidente da União Católica Internacional de Imprensa, da qual hoje é Membro de Honra.

Segundo ele, a UCBC ajudou a compreender o processo de comunicação dentro da Igreja. Mas nem sempre foi fácil. “O jornalista católico só é respeitado pelo bispo quando ele serve à Cúria. Não é respeitado como um profissional independentemente do pensamento curial. É uma tristeza isso. E a Igreja, pelo que vejo, até hoje não superou isso”, denuncia.

Na CNBB, não faltaram desafios. “Em 11 de outubro 1979, o bispo responsável pelas Comunicações da CNBB me escreveu uma carta, manuscrita, convidando-me para refletir como os comunicadores leigos poderiam ajudar a CNBB nesse campo. Eu montei de imediato um grupo de 11 pessoas, em que estavam gente da USP, da PUC-RJ, de universidades dos estados de MG, RS e PE”.

O trabalho na América Latina o levou para Roma, onde fundou o Departamento de Comunicação e Informação da Ordem dos Frades Menores e também fundou a União dos Editores Franciscanos. “Tínhamos vários editores, mas hoje todos estão em crise. Não é culpa de administração, mas estamos em outra era”, acredita Frei Clarêncio, que só voltou para o Brasil em 2003.

Respondendo sobre o modo de comunicar do Papa Francisco, Frei Clarêncio destacou duas grandes qualidades de comunicação. “Quando ele fala em ‘Igreja em saída’, na verdade fala ‘Igreja do Encontro’.  O que fala é sobre a acolhida. Eu saio ao encontro da pessoa. Esse encontro gera comunicação”, disse.

“O Papa Francisco tem o grande mérito de aproximar as pessoas”, enfatizou, lembrando que Francisco sempre alerta contra as fofocas, tão em moda hoje com as fake-news.  “A comunicação exige um grande respeito para com a outra pessoa, para o jeito de ser da outra pessoa, o jeito de outra pessoa rezar, de se relacionar com Deus”, insistiu.

Frei Felipe Carretta perguntou a Frei Clarêncio o que achava da Pascom (Pastoral da Comunicação). “Eu vejo a Pascom paroquial demais. Ela tem sua razão de ser, agora depende de qual é o sentido dela dentro da paróquia. Eu posso me preocupar com o vídeo da festa da paróquia, mas isso não basta. Eu queria cristãos na comunicação; eu queria leigos que trabalham na comunicação. Eu não sou favorável a uma imprensa católica, uma rádio católica, uma televisão católica, sei lá o quê. Olha, gente! Essa ideia é velha! Eu quero católicos na imprensa, eu quero católicos na televisão. Nossa presença deveria ser mais marcante como cristãos. Nós deveríamos ser fermento na massa, como diz Jesus. Não importa qual é o veículo de comunicação”, respondeu Frei Clarêncio.

Respondendo a outra pergunta sobre os “padres mediáticos”, contou que eles têm origem no pentecostalismo norte-americano.  “Não é minha religião, mas tudo bem. Se você fizesse essa pergunta para o povo, teria gente que apoia e gente que não suporta. Gente que acha ser exibicionismo. Se são meios, são meios. Mas se conseguem comunicar a verdadeira comunicação, não vejo por que não. Agora, não fiquem só padres mediáticos, por favor. A nossa religião não é mediática, mas é do nosso coração”, completou.

Frei Medella agradeceu a disponibilidade de Frei Clarêncio. “Eu quero agradecê-lo pela generosidade em partilhar essa caminhada tão fecunda para a vida da Igreja e que é o centro das nossas reflexões. Certamente, serve de estímulo, de base, para prosseguirmos nossa caminhada nesta disciplina”, indicou o Vigário Provincial.

Moacir Beggo

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