Comunidade N. Sra. do Rosário (Matriz) Comunidades Paróquia em Ação

Testemunha da História

A construção da capela que deu origem à atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário foi elemento central da cosmização das atuais terras capixabas pelo ocupante português, aqui chegado para a colonização a 1535 – apenas para remarcar, nos termos de Eliade, vistos no primeiro capítulo deste livro, Cosmização é a reorganização de um território “caótico” ocupado por um outro estrangeiro, sob os auspícios do sagrado experimentado pelo conquistador.

Nessa direção, o relato de Daemon (2010, p. 110), na obra escrita ao final do século XIX, é absolutamente esclarecedor. Assim descreve o historiador sobre a chegada de Vasco Fernandes Coutinho e sua comitiva de 60 pessoas, aportando com sua caravela Glória “em uma grande enseada”, a 23 de maio daquele ano e, a “tomar conta da terra e assentar seus arraiais entre duas colinas”, determinando a imediata construção da capela, entre outros:

Ordenou o donatário a dar-se principio a uma povoação neste inculto território, já construindo-se cabanas, já entregando-se ao plantio das sementes que trazia, já edificando-se um forte no lugar onde hoje se acha a fortaleza de Piratininga, como à construção de uma pequena capela próxima à praia e no fim da mesma, pouco ou mais ou menos no lugar hoje denominado rua de São João [atualmente, Rua Luciano das Neves], e talvez com essa mesma invocação, por ser o nome do monarca português, quem o sabe?

Pela datação de sua origem, podemos dizer que a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Vila Velha vem testemunhando, como nenhum outro lugar de devoção ou mesmo ponto de conização, o constituir da história capixaba pós-1535.

Além desse marco, é fato comum entre especialistas colocar a lgrejinha da Prainha como a igreja mais antiga do Brasil ainda em pleno e regular funcionamento em sua paróquia. E essa conjectura não é infundada, pelo contrário. De toda sorte, para as pesquisas deste livro, constatamos que os dois primeiros templos construídos no Brasil pelos portugueses, incluindo-se a Igreja do Rosário, ainda permanecem em atividade. Vejamos.

Para a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Espírito Santo, Elisa Machado Taveira, “não temos a confirmação oficial da informação, apenas o conhecimento da reprodução da mesma, sem saber de fato a fonte. O que podemos afirmar seguramente é que a Igreja do Rosário de Vila Velha é a mais antiga do Espírito Santo”.

Segundo Freire (2006, p. 47), comentando as primeiras vilas e povoações portuguesas no Espírito Santo: “Na pedra d’ara da respectiva matriz, na pitoresca Vila Velha, lê-se a data 1535, bem como a indicação da procedência: Lisboa. Foi a freguesia mais antiga ao sul da Bahia. Do mesmo ano é a matriz de Igaraçu, considerado o templo mais antigo do Brasil”.

Buscando saber a atual condição da igreja de Igarassu, fizemos contato com a prefeitura da cidade. O secretário executivo de Patrimônio Histórico de Igarassu, o historiador Jorge Paes Barreto, informa, a partir de solicitação deste autor, via e-mail, em 8 de fevereiro de 2017, que “a igreja matriz dos Santos Cosme e Damião de Igarassu é sede de freguesia criada em 1594, sendo atualmente considerada a mais antiga do Brasil. A mesma tem funcionamento regular com missas celebradas às quintas- 19h, aos sábados 16h, e aos domingos 7 e 19h. No domingo ainda se celebram, pela manhã, às 9h, os batizados. A igreja é aberta à visitação pública todos os dias da semana, sendo a visita gratuita”.

Assim, temos, pelo menos por este tempo e no âmbito de nossa Pesquisa, que a Igreja do Rosário Prainha coloca-se como um dos dois templos mais antigos do Brasil ainda em pleno funcionamento, ao lado da Igreja dos Santos Cosme e Damião, também erguida em 1535, em Igarassu, Pernambuco.

Ou seja, a Igrejinha da Prainha é, juntamente com a pernambucana Igreja de São Cosme e São Damião, a mais antiga do Brasil em funcionamento, tendo sido ambas erguidas originalmente na primeira metade do século XVI. De toda sorte, a trajetória da Igreja do Rosário tem muitas lacunas na memória que se faz sobre ela e também não consagra mesmo unanimidades sobre as ocorrências de sua existência. A começar pelo orago, que é o santo homenageado no templos católicos. Conforme já anotamos no capítulo anterior, afirma-se que já foram cultuados na igreja São João e também Santa Catarina.

Segundo Achiamé et al. (1991, p. 109), que refutam o culto a São João, que teria sido o primeiro padroeiro da igrejinha, conforme aventado por Freire há pouco citado, a consagração a Nossa Senhora do Rosário teria sido obra dos jesuítas, aqui chegados em 1551. Mas essa fonte também diz: “Figura o testamento de Vasco Fernandes Coutinho Filho, de 1573, que, por duas vezes, referindo-se à Igreja em Vila Velha, fala em ‘Igreja de Santa Catarina”.

Os autores concluem: “Restam-nos, então, os dois nomes possíveis para o primeiro Orago – Santa Catarina, e o atual Nossa Senhora do Rosário”. De encontros e versões à parte, fixou-se memoravelmente a devoção a Nossa Se senhora do Rosário, espraiada mundo afora exatamente no tempo da instalação da “Igrejinha da Prainha” nas terras capixabas, conforme visto no capítulo primeiro deste livro.

Sobre a edificação que primeiramente abrigou o que se tornou a instituição Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Almeida (2009, p. 387) relata que a capela original, “tão provisória” quanto a recém-estabelecida vila que lhe dava abrigo, “não passava de uma construção em taipa de mão coberta por folha de palmeira”.

Ao longo do tempo, também se tem notícia de diversas obras de recuperação e ampliação do templo, de acordo com diferentes autores e igualmente com diversas ocorrências. Aqui se relatam algumas. Para Almeida,

não se sabe ao certo, mas a igreja definitiva, considerada uma ampliação da primeira edificação, teria como autores os padres jesuítas Afonso Brás e Simão Gonçalves, recém-chegados na capitania. É uma das primeiras construídas no Espírito Santo. O ano, 1551. A obra, conforme relata a história, teria sido realizada com o aproveitamento de alicerces e paredes existentes, por serem mínimos os recursos disponíveis. Essa, contudo, não muito resistente, foi reedificada no século XVII, após arruinar-se, passando a abrigar a cor da Irmandade da Misericórdia. […] Singular em sua religiosa vocação, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em definitivo, edificada segundo técnica e materiais preferidos para arquitetura destinada a ser duradoura: erguida com alvenaria estrutural e coberta por telhas capa-canal de barro, as mesmas utilizadas para executar os beirais, em beira e bica (p. 388).

De acordo com Achiamé et al. (1991, p. 109), “os jesuítas, ao chegarem em 1551, teriam ajudado a erguer outra capela maior”. Essa fonte também relata: “Alguns autores afirmam que a igreja se arruinou e, ao ser reedificada, ainda no século XVII, tornou-se Casa da Misericórdia. […] De qualquer forma, só vamos ter novas notícias dela no início do século XVIII, quando obteve por Carta Régia de 9 de novembro de 1709 o auxílio real de 200 mil reis”.

Segundo Freire, “o rei D. João V mandou reedificar a respectiva matriz, por conta da Fazenda Real, nos termos da provisão de 17 de setembro de 1726. […] No alto da matriz de Vila Velha, as armas de Felipe II de Castela recordam a restauração do antigo templo” (p. 49). Para bem localizar no tempo essas citadas obras, registramos que Dom João V, da Dinastia de Bragança (1640-1910), reinou entre 1706 e 1750. Felipe II foi governante durante a União Ibérica, entre os anos de 1598 e 1621.

Caminhando na trajetória do templo, “em 1750, tornou-se Igreja colada”, informam Achiamé et al. (p. 109). Ou seja, a igreja finalmente é elevada a paróquia, tendo um vigário responsável e podendo arrecadar dízimos e fundos para sua própria manutenção.

Novos registros sobre a Igreja de Nossa Senhora do Rosário aparecem com a sua citação em documentos históricos sobre a visita de D. Pedro II à província do Espírito Santo, em 1860. Anotou-se o estado de abandono e penúria da paróquia, testemunhado pelo próprio imperador, conforme relato de Rocha (2008). O imperador, após visita e missa no Convento da Penha, observando o estado geral da igrejinha, chega a doar 400 mil reis para a reforma do templo, tendo escrito no seu diário: “A matriz que não tem vigário há bastante tempo conserta-se; tudo na vila está em decadência”. É esclarecedor o relato do jornalista do Jornal do Comércio que acompanhava a visita imperial: “Descendo do convento, Sua Majestade percorreu ainda a vila, visitando a matriz cuja vista inferior faz apertar de dor o coração do cristão” (p. 116).

De acordo com o memorial do Projeto de Restauração da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, elaborado pelo Instituto Goia, de autoria dos arquitetos Pedro Canal Filho e Leandro Terão, “em 1908 foram instalados os altares atuais e em 1912,  quando da implantação da linha de bonde no entorno da edificação, a estrutura foi reforçada, após apresentar rachaduras provavelmente resultantes da trepidação (2015, p.05).

Ainda segundo Canal Filho e Terrão, no final da década de 1950,

foram instalados os ladrilhos hidráulicos no piso e na década de 1980 a Igreja do Rosário sofreu sua intervenção mais impactante. Nesta obra foram removidos componentes originais da edificação, como o púlpito de madeira e a substituição de toda a estrutura de madeira do coro por uma nova em concreto armado. Em 1999, foram feitas intervenções nos elementos de madeira da Igreja – especialmente telhados e esquadrias, pois estes apresentavam ataques de térmitas. Ao longo dos últimos anos, a comunidade vinha se mobilizando para manter e conservar a edificação. O altar-mor, por exemplo, foi restaurado em 2007. A última intervenção no local foi a criação de uma vala de ventilação com enchimento em brita no entorno da edificação para resolução/melhoria do problema da umidade ascendente (p. 05).

No finalzinho de 2015, foi iniciada a restauração do templo, com obra estrutural, reboco, telhado, esquadrias, acessibilidade, e restauro de pinturas que remontam à configuração do templo na transição do século XIX para o século XX.

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