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O lugar dos templos

Tendo falado da experiência do sagrado, das institucionalidades religiosas, e das devoções, especialmente a de Nossa Senhora do Rosário, conforme o objeto desta publicação, é hora de tratarmos de um aspecto fundamental do âmbito da vida religiosa, também considerando a temática deste livro: os templos.

Por que se constroem os templos, as igrejas? Em linhas gerais, essas obras do engenho humano, que, geralmente, abrigam e se constituem com o mais belo que se pode projetar e se realizar, cumprem a função de dar lugar à experiência do sagrado, em meio ao espaço profano.

Os templos conectam o fiel com o divino que se manifesta no mundo material, e, também, marcam a divisão do espaço profano do religioso. São, ainda, a “reprodução” ideal do mundo como obra de Deus ou dos deuses inspirado ou originado do mundo sagrado, o templo se coloca como um lugar igualmente sagrado, instituindo-se como uma representação simbólico-material da divindade entre nós.

Conforme Eliade, o espaço do mundo para os homens religiosos não é homogêneo, dividindo-se entre aqueles sagrados, “fortes e significativos”, e os não sagrados. “amorfos e informes” (p. 27). Um exemplo:

uma igreja, numa cidade moderna. Para um crente, essa igreja faz parte de um espaço diferente da rua onde ela se encontra. A porta que se para o interior da igreja significa, de fato, uma solução de continuidade. O limiar que separa os dois espaços indica ao mesmo tempo a distância entre os dois modos de ser, profano e religioso. O limiar do mesmo tem o limite, a baliza, a fronteira que distinguem e opõem dois mundos – e o lugar paradoxal onde esses dois mundos se comunicam, onde se pode efetuar a passagem do mundo profano para o mundo sagrado (p 29).

A edificação de templos participa, também, do processo de conquistas territoriais, visando a organizar o caos (terra tomada), transformando o profano território amorfo num cosmos específico, ou seja, “no nosso mundo” (terra conquistada, domesticada, transformada em lar), em oposição ao que está lá fora, ao “espaço estrangeiro, caótico, povoado de espectros, demônios” (p. 32), sempre conforme Eliade.

Essa cosmogonia sagrada pode ser observada ao longo do tempo em todos os cantos do planeta na orientação da expansão dos territórios cósmicos ante os territórios caóticos. A colonização portuguesa no Brasil pode bem ser visualizada por esse raciocínio de Eliade acerca da sacralização de todo o território conquistado e organizado segundo os valores e princípios do conquistador, divisando-o do caos além-fronteira. Segundo o pensador,

quando se trata de arrotear a terra inculta ou de conquistar e ocupar um território já habitado por “outros” seres humanos, a tomada de posse ritual deve, de qualquer modo, repetir a cosmogonia. Porque, da perspectiva das sociedades arcaicas, tudo o que não é o “nosso mundo” não é ainda um “mundo”. Não se faz “nosso” território senão “enfiando-o” de novo, quer dizer, consagrando-o. Esse comportamento religioso em relação a terras desconhecidas prolongou-se, mesmo no Ocidente, até a aurora dos tempos modemas Os “conquistadores” espanhóis e portugueses tomaram posse, em nome de Jesus Cristo, dos territórios que haviam descoberto e conquistado. A ereção da Cruz equivalia à consagração da região e, portanto, de certo modo, a um “novo nascimento”. Porque, pelo Cristo, “pararam as coisas velhas, eis que tudo se fez novo” (II Corintios, 5:17). A terra recentemente descoberta era “renovada”, “recriada” pela Cruz (p. 34/35).

Segundo Eliade, é “importante compreender que a customização dos territórios desconhecidos é sempre uma consagração: organizando um espaço, reitera-se a obra exemplar dos deuses” (p. 35). Nesse processo, conforme já adiantamos, a construção de templos tem seu lugar especial:

Lugar santo por excelência, casa dos deuses, o Templo ressantifica continuamente o Mundo, uma vez que o representa e o contém ao mesmo tempo. Definitivamente, é graças ao Templo que o mundo é ressantificado na sua totalidade. Seja qual for o seu grau de impureza, o Mundo é continuamente purificado pela santidade dos santuários (p. 56).

A Igreja da Prainha de Vila Velha, construída imediatamente à chegada dos portugueses às terras capixabas, constituiu-se como um sinal de recriação dessas paragens, de renascimento pela cosmização de um território caótico habitado pelos silvícolas. A construção, ainda que precária, representou a consagração desse território a Cristo, significou a sua refundação.

Também se pode dizer, a partir dos estudos de Eliade, que esse templo vem, continuamente, para os homens de fé, ao longo de quase cinco séculos de sua construção, ressantificando as terras capixabas. Com sua santidade, vem purificando o território espírito-santense.

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