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A Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Prainha do Espírito Santo

O tempo esculpe na linha, ou nas curvas, da existência as feições da História. A cada momento, a cada segundo, cria, recria, acrescenta, subtrai, soma, torce, contorce, enfim, modela gentes, paisagens, construções, fazendo de seu passar um infinito painel de vivências, as quais também podemos chamar de temporalidades, ou a experiência do tempo.

Olhar para si, olhar à volta, enxergar as camadas e os sintomas da mão invisível do tempo em si, no entorno, é um exercício de pura magia e encantamento com o fato da vida. Olhar para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Prainha, em Vila Velha, é, nesse sentido, um movimento mágico, de fascinação com o tempo e suas indeléveis marcas e seu eterno testemunho na temporalidade.

Não à toa, propomos chamar esta, que é uma das igrejas mais antigas do Brasil em pleno funcionamento, de Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Prainha do Espírito Santo. Isso porque, como nenhum outro edifício, ela é testemunha e também evidência da trajetória histórica dos capixabas inaugurada pela colonização portuguesa.

Já se vão quase cinco séculos desta entidade que se tornou aquele que foi o primeiro templo de oração dos portugueses aqui chegados em 1535. Digo entidade porque a igreja que acaba de ser restaurada e revitalizada é caudatária de uma pequena ermida construída na enseada que primeiro foi pisada pelos colonizadores naquelas que se batizariam como as terras capixabas.

Só para se ter ideia do percurso de 483 anos, a igreja original foi erguida logo após o desembarque do primeiro donatário do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho. A partir da chegada dos jesuítas, em 1551, outro marco na colonização capixaba, foi ampliada.

Em 1860, recebeu o imperador Pedro II, que escreveu em seu diário, após doar 400 mil réis para a recuperação do templo: “A matriz que não tem vigário há bastante tempo conserta-se; tudo na vila está em decadência”. Um jornalista que acompanhava a visita imperial reportou: “Descendo o convento, Sua Majestade percorreu ainda a vila, visitando a matriz cuja vista inferior faz apertar de dor o coração do cristão”.

A transição do século XIX para o XX guia-se pela determinação de modernização e encobrimento dos vestígios dos tempos idos da colônia e do império. Tala afã de reinvenção não poupou a igreja, que passou por modificações em sua estética e configuração. As principais referências recuperadas e vivamente expostas nas paredes e altares após esta restauração levam a esse período.

Em 1950, o imóvel foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o que não o poupou de profundas mudanças no seu interior, desde então. Talvez tais intervenções se expliquem pelo fato de que se trata de uma igreja viva, em pleno uso pela comunidade. E foi em diálogo com essa comunidade que em 2016 iniciou-se e concluíram-se as obras de melhorias e restauração completa do templo, também celebradas por este livro.

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A devoção a Nossa Senhora do Rosário surge na Idade Média exatamente como uma das tentativas de aproximar o culto a Maria da ampla maioria da população. Segundo uma tradição, ao se rezar uma Ave-Maria a cada conta do terço, oferece-se uma rosa – a rainha das flores – à Mãe, constituindo-se a devoção de Nossa Senhora do Rosário, cujo templo, localizado no sítio original da colonização, testemunha solene e simplesmente o caminhar capixaba ao longo dos séculos.

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José Antonio Martinuzzo

Doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, jornalista, escritor, professor e pesquisador na Universidade Federal do Espírito Santo

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