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Nós somos menores em relação a quem?

Agudos (SP) – Com a Celebração Eucarística em honra ao Divino Espírito Santo, começou nesta terça-feira, 13 de novembro, o Capítulo Provincial da Província da Imaculada Conceição do Brasil. O Visitador Geral, Frei Miguel Kleinhansas, presidiu a Celebração, às 8 horas, tendo como concelebrantes Frei Fidêncio Vanboemmel e Frei César Külkamp.

Frei Miguel deu as boas vindas a todos os 133 frades que estarão reunidos até o próximo dia 21 de novembro no belíssimo Seminário Santo Antônio de Agudos (SP) e pediu para os capitulares colocarem Deus no centro de tudo. “O Espírito Dele nos une”, disse.

“Que o Espírito Santo de Deus inspire esta Fraternidade durante o Capítulo”, desejou Frei Miguel, que presidiu, logo em seguida, a instalação do Capítulo na Sala São Francisco, lendo a carta do Ministro Geral que o nomeou como Visitador Geral desta Província em setembro do ano passado. O hino “Veni Creator Spiritus” durante a oração encerrou este primeiro momento.

FREI VANILDO FALA SOBRE MINORIDADE

Antes de iniciarem os trabalhos, os capitulares estarão em retiro até amanhã à tarde (quarta-feira), tendo como assessor o frade capuchinho gaúcho, Frei Vanildo Zunho.  O presidente da Comissão Preparatória do Capítulo, Frei Gustavo Medella, fez a acolhida de Frei Vanildo com uma breve apresentação, lembrando que ele é graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), doutor em Teologia e professor de Teologia na ESTEF, no UNILASALLE (Canoas) e na EST (São Leopoldo).

Frei Vanildo agradeceu a acolhida e falou sobre a temática que abordará no retiro. Destacou que o tema da Minoridade desse Capítulo já foi refletido e aprofundado durante o processo preparatório. “Não pretendo fazer uma abordagem teórica, nem trazer novidades, mas, respeitando a dinâmica do Capítulo, me propus trazer alguns subsídios, afinal, a proposta é um retiro”, explicou. Para isso, tomou como base os textos do próprio São Francisco de Assis. “Em momentos tão importantes em nossas vidas, como comunidade de frades, é importante voltar ao próprio Francisco. Ele não construiu nenhuma proposta teórica. Seu intento era voltar ao próprio Evangelho. Nós, enquanto franciscanos, devemos refazer esse caminho de Francisco, quem sabe até voltando ao nosso noviciado, revisitando textos fundamentais para o franciscanismo. Uma provocação para a volta ao próprio Francisco”, disse.

Nessa revisitação tomou por base biografias e a vida da Igreja na atualidade. “Fazemos parte de uma Igreja que hoje passa por um momento muito especial. Os momentos de crise são oportunidades para retomar nossa origem. Traremos textos do Papa Francisco, pois se um jesuíta assumiu o nome de Francisco, isso quer dizer alguma coisa para nós. Temos de considerar também os textos do Vaticano II, de Medellín, que nos provocam a vivermos nossa vocação”, disse.

IMAGENS DA CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA

MENOR É UM ADJETIVO QUE QUALIFICA O QUE É SER FRADE

Segundo o frade, na tradição franciscana primitiva, a palavra minoridade era ausente. “Até porque, no latim utilizado na época, ela não existia. Minoridade é uma abstração. Aparece muito a palavra menor, quase sempre associada ao frade: Frade menor, irmão menor. Menor é um adjetivo, ele qualifica o que é ser frade. É como o caminho para ser frade”, explicou.

Também disse que “menor” é uma palavra comparativa. “Diferente de mínimo e máximo, que são absolutos. O comparativo menor é sempre em relação a outro numa comparação. Menor não existe em si mesmo; ele sempre exige uma comparação. E daí vem uma pergunta: Nós somos menores em relação a quem? Por isso prefiramos menor à minoridade, pois minoridade dá uma ideia estática, e menor já denota esse estar em relação”, esclareceu.

Frei Vanildo recordou que há tempos dá-se valor à busca de identidade, à volta às origens, principalmente na Vida Religiosa. “Mas, segundo os antropólogos, ninguém define sua identidade a partir de si mesmo, mas sempre a partir dos outros. Tem-se, na verdade, muitas identidades de acordo com a situação e as pessoas com quem se está em relação. O frade é confrade na fraternidade; é pároco, muitas vezes, na vida paroquial; ou é empresário de acordo com os trabalhos que assume. E isso é muito comum, não é esquizofrenia, é devido à importância constitutiva das relações. E assim também é nossa minoridade, ela se dá nas relações”, clarificou.

Segundo o frade, Francisco vivia isso bem concretamente. “Várias vezes, nas biografias, vemos Francisco ao se deparar com alguém com as vestes mais surradas que ele, e pedia para trocá-las. Francisco queria sempre ser o menor. E isso sempre ocorre nas relações. Francisco quis ser o menor na hora de sua morte, o menor dentre aqueles que o rodeavam. Nunca vamos alcançar a minoridade, mas precisamos buscar ser menores a cada momento”, enfatizou.

Frei Vanildo adiantou que para a reflexão da tarde de hoje e para o dia de amanhã, escolheu seis relações que fazem parte de nossa vida: “Relação com Deus, pois como homens de fé, Deus precisa ser nosso referencial; como fazemos a experiência de minoridade diante de Deus e concomitantemente, diante de nós mesmos?;  refletiremos sobre a minoridade na vida fraterna e na Igreja; e, por fim, a minoridade no mundo de hoje e dentro da criação de Deus”.

Frei Vanildo disse que é preciso entender a minoridade não como um conceito estático, mas sempre em movimento, em relação. “Mesmo Jesus pergunta aos discípulos: ‘quem dizem que eu sou?’ O Papa Francisco usa uma expressão que nos convoca muito a pensar: autorreferencialidade. Ao buscarmos nossa minoridade, não podemos ser autorreferenciais. Os outros que nos dirão se somos menores ou maiores”, ensinou.

“Ser menor não é nem algo de que nós, franciscanos, podemos nos orgulhar, pois isso é algo proposto a todos os cristãos. Paulo, aos Filipenses, apresenta talvez uma boa explicação do que é minoridade: ‘Cada um considere com humildade os outros superiores a si mesmo, não visando o próprio interesse, mas os dos outros’. Isso é o fundamento da minoridade: ‘Tende em vós os mesmos sentimentos que Cristo Jesus’”, situou.

Esse texto sobre a kénosis, o esvaziamento – explica o pregador – apresenta as dimensões que Francisco viveu como projeto de vida. “Na dinâmica da Encarnação, Deus se faz menor que a Si-mesmo. Ele se faz humano: ‘esvaziou-se de si mesmo’. Mas Paulo frisa que Jesus tornou-se não apenas humano, mas solidário com o humano, solidário com os pobres, excluídos, não se fazendo senhor, mas servidor. E a terceira dimensão é que Jesus humilhou-se a si mesmo até a morte de Cruz. Essa, talvez, seja a mais exigente e mais definitiva”, observou.

IMAGENS DA INSTALAÇÃO DO CAPÍTULO E PALESTRA

“Em cada tempo e em cada lugar, o ser menor é diferente, conforme os desafios e contradições a que somos chamados a responder. É preciso um olhar bem atento à realidade, a fim de aproximar o nosso ser menor com os menores de nosso tempo. Para fazer o que Jesus fez, para que não haja uma sociedade com ‘maiores x menores’”, pediu.

A pedagogia de Jesus, para o ser menor, transparece nas suas atitudes. Diante do cego Bartimeu, que gritava à beira do caminho, Jesus pergunta a ele: “O que queres que eu te faça?” Ele era cego, responde: “Que eu veja!” Ser menor é saber escutar, não ter a resposta pronta. E Jesus sabe escutar. Ao curar o leproso no caminho, Jesus assume sua condição. É o segundo passo da minoridade: primeiro é escutar; depois colocar-se no lugar do outro. O leproso curado, sai proclamando sua cura, mesmo Jesus tendo dito a ele para não contar a ninguém. Resultado: ele pôde entrar na cidade, mas Jesus não pôde mais, pois ao tocar no leproso, Jesus se torna impuro aos olhos dos outros”, observou.

O terceiro passo da pedagogia da minoridade encontra-se no Lava-pés e na discussão dos discípulos que, no caminho, pediram a Jesus para ficar um a sua direita e outro a sua esquerda. Logo, eles queriam ser os maiores. “Jesus responde que quem quiser ser o primeiro, deve ser o servo, e o maior deve ser o menor. Minoridade como humilhação. Jesus pergunta: vocês podem beber o cálice que eu vou beber? Podem receber o batismo com que eu serei batizado? Esse batismo é o da Cruz”, acrescentou.

Segundo Frei Vanildo, a cruz não era apenas para matar, mas para humilhar. “Hoje, temos uma sociedade que massacra os menores. Assassinatos, em sua maioria, de negros, pobres, de menores. Nessa sociedade que massacra os menores, optar por ser menor é assumir o mesmo tratamento dos menores, é aceitar a humilhação da cruz de Jesus e aceitar a humilhação dos menores, dos crucificados do nosso tempo, da nossa história”, disse.

O BEIJO NA CRUZ

“Bendita e louvada seja, no céu a divina luz e nós também cá na terra, louvemos a Santa Cruz”. Depois deste hino religioso tradicional, Frei Vanildo continuou falando sobre a cruz e lembrou que ela era símbolo da minoridade para Francisco. “Era a própria minoridade. O Crucificado era o paradigma Daquele que se fez o menor para salvar a humanidade”, enfatizou o frade.

Segundo ele, há dois episódios da vida de Francisco em que a cruz está presente, muito importantes porque emolduram a vida de Francisco. “A moldura inicial é o diálogo de Francisco com o Crucifixo de São Damião. Francisco estava em busca do destino a dar à sua vida e já estava vendo as primeiras luzes no caminho. Essas luzes se tornam definitivas quando, passando pela igreja de São Damião, ele depara com o Crucificado que diz: ‘Vai e repara a minha igreja’. Ele deixa sua vida de burguês e começa a trabalhar com as próprias mãos para reconstruir a igreja e, para ter pedras para reconstruí-la, ele começa a pedir esmolas e vai morar fora da cidade. Esse movimento, em que ele passa da maioridade para a minoridade, quem o provoca o é o Crucificado”, ilustra.

O quadro final dessa moldura, segundo o pregador, são os estigmas de São Francisco, em que a cruz é algo que passa a fazer parte do próprio corpo do santo.

“Anônimo Perusino descreve de forma interessante os estigmas. Diz que não eram sinais exteriores, mas que os pregos brotavam de dentro da própria carne de Francisco. Eu diria, Francisco incorporou a cruz no seu próprio corpo. Fez do seu corpo uma identificação perfeita com Jesus Cristo. Quando nós pensamos em minoridade, o menor é aquele que morreu na cruz. Ele é o nosso paradigma, a nossa referência para a nossa minoridade”, ensinou, convidando os frades para fazerem um gesto muito simples que nasce na piedade popular: beijarem a cruz como na Sexta-feira Santa, em sinal de reconhecimento para com aquele que se fez menor. “A piedade popular é uma forma de permanecermos na condição de menores”, completou.


Equipe de Comunicação do Capítulo: Frei Augusto Gabriel, Frei Clauzemir Makximovitz, Frei Gabriel Dellandrea e Moacir Beggo